quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Contos de Pena - Conto II


A Galinha que se Apaixonou por  um Passarinho

         De repente, não mais que de repente, o milho, a pintalhada das amigas, nem as suas próprias ninhadas a satisfazia mais. Nem o mais ímpar azul do céu,  que ela contemplava  quando bebericava a fresca água, bastava para ela. Nada disso a satisfazia mais como antes. Seu cacarejo, antes estridente, agora parecia mais triste que a ressoada vento Minuano.
         Eis o motivo: certa vez, ao matar a sede, a galinha  abrira os olhos, por acaso, deu-se imensamente apaixonada por um majestoso colibri.
         Vivera, a pobre, esse amor platônico meses escondido, sem perceber que não era tão escondido assim. Já dizia Mário Quintana que: “[...]esconde-se tudo de um tudo, mas da alma não se esconde nada, de nada”.
         Raciocinava a pobre galinha, sem saber que o amor não segue lógica alguma: “Como pode uma galinha quadrada, inócua, que tem asas como a garça, mas que não voa,  que tem garras, mas que não intimida como a águia, enamorar-se de  um garboso beija-flor?”
         Nisso, suas asas inférteis criavam vida e seus pensamentos voavam – a se voavam - e ela se imaginava linda, livre, leve, voaejando pelos jardins afora ao lado de seu intrépido beija-flor.
          No sonho, ele era todo para ela.
          Era para ela que ele buscava o  néctar das mais finas flores e trazia ao seu biquinho longínquo de leve passarinha. Era para ela que ele prometia grandes ninhadas de filhotes  saudáveis. Era para ela que ele gorjeava as mais belas melodias do amanhecer. Era para ela que ele enfeitava sua plumagem de um azul marinho que a fazia esquecer de sua condição de galinha doméstica, de ave voadora, mas que não voa, de quilha grossa, de peito largo e de pés feios.
         Entre sonhos e tristezas vivia a nossa galinha. Até que um dia.... o sonho deixou de ser sonho. O flutuante passarinho lhe confessou que se encantava com a maneira que, em um dia de chuva, a espiara colocar os inúmeros pintinhos – alguns nem dela eram - sobre suas asas, deixando-os sequinhos durante a forte enxurrada. Ele venerava o jeito de cuidadora que ela tinha com o galinheiro inteiro.
         Enfim.....ele a amava também.
         A vida vira magia, o galinheiro vira o templo do amor dos dois. Aos outros, tem hora que ela parece que voa como ele, tem hora que ele se parece tão grande como ela. Algo subliminar acontecia naquele galinheiro. Ele preferia nem voar mais. Acomodava-se sobre a costas dela e ali ficava o dia todo. Galinha e beija-flor segredavam um ao ouvido do outro juras eternas de amor.
         Era beija-amor pra lá, flor-do-amor pra cá e assim plumas d’alma eram soltas ao vento.
         Luas se passam, até que o inevitável acontece : descascam-se para o mundo uma seleta ninhada de beija-florezinhos ou seriam pintos-flores?..... Em número de três.
         Dois muito amarelos e brilhantes como ela. O primogênito, o que descacara primeiro, era meio escuro e brilhante. Ele era.... diferente dos demais. Sim, era isso.
          No começo, mãe e pai não entendiam o porquê daquilo tudo. A galinha-mãe cacarejava ruidosamente e o pai-ssaro, por muito tempo, calara-se para as melodias matinais. Tinham medo, dúvidas, vácuo, mas muito, muito amor , assim, logo ele tornara-se o filhote  preferido do excêntrico casal.
         Este pinto-flor era forte, suas penas eram acinzentadas, de um cinza brilhoso, parecido com as escamas do peixe Libi, do Amazonas.
         Os outros pintos-flores – os amarelinhos – cresceram rápido e foram morar em outros galinheiros. Dizem, até, que um deles foi para um terreiro nos estrangeiros.
         E a família continuava sua rotina perfeita. Os três vivendo em perfeita harmonia. Às vezes o pintinho cinza que, cresceu tanto que ultrapassara seu pai, também, o carregava nas costas.
         Um dia, porém, tudo mudara. Vendo-se refletido nas poças d’água do terreiro, o pintinho cinza percebeu que ele não podia ser um pinto, nem um frango; muito menos um galo-alfa cantador. O pintinho, tão diferente, tão ... especial, percebeu-se que ele, na verdade, era um temido falcão. Uma voraz ave de rapina, como aquelas que admirava no alto dos céus.
         E, tendo ciência do que ele era, só o céu fora o limite. Suas asas cortaram as nuvens aos pedaços e seus medos e dúvidas sobre sua personalidade foram devorados como suas presas.
         Répteis, anfíbios, pequenos mamíferos passou a ser o seu novo cardápio dali em diante. Como pode, por tanto tempo, contentar-se com milho e pedrinhas?
         Os pais ficaram  felizes e não se opuseram à partida de seu filho preferido, porque o destino de que tem asa são só dois: voar ou amar.
         Enfim, esta é a história de uma galinha que se apaixonou por um beija-flor e que foi mãe de um lindo falcão, que quase virou galo.

Palavras-chaves: diversidade, transformação, sonho, destino.

Temática:
- as novas estruturas de família;
-  diversidade;
- conceito de belo;
- etc.

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