segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Contos de Pena - Conto I


O galo em: a triste constatação  


         “Um galo sozinho não tece um amanhã...”, já sabiam os galos de João Cabral de Melo Neto. Se o protagonista  deste conto, disto soubesse, não teria o fim trágico que teve.
         Toda manhã, era ele – o galo -  o responsável de abrir a cantoria, que trazia a alvorada e que tirava os senhores da cama.
         Ai de quem ousava trepar no beirado mais alto do galinheiro e cantar. O aspirante que tentava tamanha façanha acabava, por   semanas a fio, sendo perseguido com sanguináreos bicotes na cabeça e assustadores  cacarejos.
         Era o mais bonito, o mais garboso, suas cores eram múltiplas, suas penas eram lustrosas; era o mais velho do terreiro e, principalmente, o maior. Então, como podia outro frangote querer tomar o lugar mais importante e destronar seu mundo? Assim pensava o galo-rei. O trono, além do mais, dava-lhe a preferência entre as galinhas. Tornava-o  o macho-alfa do terreiro.
         Enfim, acordar o terreiro e chamar o sol era o ápice em qualquer sociedade galinácea.
         Os anos se passavam e a hierarquia se mantinha até que um dia uma tragédia aconteceu.
         O galo-rei, cuja pontualidade sempre fora britânica, dormira um pouco a mais e, quando acordou o sol já ia alto no horizonte. Os raios já adentravam nas frestas do galinheiro. O pessoal da casa já estava no roçado e a galinhada toda espalhada no terreiro.
         E o galo não entendia: “Como pode o sol nascer, se eu não estava em pé para acordá-lo? Afinal, não sou eu quem faz os  dias amanhecerem?”, indagava a egocêntrica criatura.
         Para ele nada mais importava. O ciscar único de cada franga, não lhe atraia mais, o mais tenro milho, a mais fresca água, a maior rinha, nada, nada tinha mais sentido para ele.
         “Para que viver, se o sol nascerá sem mim? Com ou sem o meu chamado, ele se deslindará no horizonte? Que utilidade tenho eu?” Altercava-se ele. Era de dar pena.
         Por fim, já desiludido de tudo, o galo - ou melhor, o que sobrara dele - trancafiara-se na parte mais escura do galinheiro disposto a nunca mais sair. Três luas depois, seu corpo fora encontrado já em estado de putrefação.
(Por Prof.Edinho)
Palavras-chave: Egocentrismo. Humildade. Verdade.

Temas abordados: ;
_ Individualismo;
_ Psicologia;
_Auto-estima.

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