O aluno caderneta de poupança e o
aluno aplicação em ações
O título acima é auto-explicativo e nos remete ao mestre Paulo Freire. Não foi uma, dez, nem dez centenas de vezes que esse professor humanista criticou a educação do depósito em prol de um fazer-pedagógico significativo para o aluno e, consequentemente, para o professor.
Infelizmente, no século vinte e um, ainda nos deparamos com escolas e mestres que não acreditam na perspectiva de uma aula menos expositiva, mais dialógica; menos cansativa, mais interativa e prazerosa; menos do faz-de-conta e mais apreendedora da realidade para todos os envolvidos .
Essa é a educação do faz-de-conta que Freire batizou de “educação bancária”, em que o aluno fica sentadinho por horas seguidas, com funis muito grandes nos ouvidos, recebendo o maior número possível de informações que o professor eficiente consegue depositar.
A problemática acima é tão séria que o adjetivo “eficiente” dado ao professor não é uma ironia. No país inteiro, encontramos escolas muito boas, com gestão democrática, com participação efetiva da comunidade, poderia, aqui, enumerar algumas dezenas. Nessas escolas, contudo, ainda é desenvolvida a educação depositária, que mata o aluno em sua seiva produtora. Professores eficientes que matam alunos? Isso é possível?
Sim, eu mesmo, advogado do diabo, já fiz e talvez, ainda, faça isso. Você que me lê, se não fez, faz ou um dia ainda irá causar a morte intelectual de seu aluno.
Somos, aos montes, professores eficientes trabalhando em escolas eficientes. Pois, nossa escola – a que trabalhamos – é organizada, os alunos não entram atrasados sem os devidos trâmites legais, os pais são chamados sempre que é preciso, os alunos não andam de boné na sala de aula (um parênteses para esse cúmulo do autoritarismo) usam uniformes sempre limpos e impecáveis. Se algum aluno falta mais de cinco dias consecutivos ou sete alternados é feito o que determina a lei e os órgãos competentes são acionados.
Se algum aluno anda frequentemente sonolento ou cansado em sala de aula, os técnicos são comunicados e uma medida sempre é buscada. Se o aluno é muito carente e a escola sabe que ele precisa de alguma ajuda financeira, o professor dá cesta básica; a escola liga para o serviço de assistência social do município e busca um auxílio; o professor vai pessoalmente a Unidade Básica de Saúde ou aos conveniados com universidades atrás de serviços psicológico, terapêutico, fonoaudiológico e pede que seu aluno seja atendido com carinho especial por aquele profissional.
Certamente, você, professor e sua escola já buscaram inúmeros meios de trazer os pais de seus alunos e a comunidade como um todo para dentro dos muros escolares. As lindas feiras de ciências, de artes, as tardes de teatro, os cafés coloniais, os majestosos Dia dos Pais, das Mães, as gincanas em que os alunos são convidados a irem fantasiados, ou de pijamas, e novas feiras interdisciplinar, que estão em alta agora, tudo isso é feito com muito, muito esmero e dedicação por, no mínimo, cinqüenta por cento dos seus colegas. Então, tudo isso é sinônimo da mais pura eficiência. Eficiência de gente que trabalha duro, que ama o que faz e o faz com amor.
Tais alternativas, contudo, são paliativas e não bastam para resolver toda a problemática que abarca o sistema educacional que vivenciamos e que ofertamos as nossas crianças quase que como a única alternativa deles serem “alguém na vida”. Como diria os mais velhos, “o buraco é mais embaixo”. E esse buraco tem uma dupla-obscuridade pois a solução se parece tão óbvia quanto complicada.
Retomando Paulo Freire, seria simples, bastaria pararmos de “dar aula” e levar os alunos a pesquisar. O professor instrumentaria seus alunos a fazer tal projeto com a aquisição de determinado conhecimento científico. Pedro Demo afirma que “a pior coisa da aula é a aula” Içami Tiba, em seu livro Ensinar Aprendendo, se faz porta-voz dos alunos e afirma que eles dizem que “a escola até que é boa, o que estraga são as aulas”.
O que fazer, então? É simples, observe: o professor deveria, de uma vez por todas, descer do seu púlpito e entrar no grande círculo dos alunos. O professor deveria unir ao máximo o seu conhecimento científico com a mediação de conceitos morais e sociais. O professor deveria expor os conteúdos ao mínimo e levar seus alunos a pesquisar e se tornarem autônomos o maior tempo em que estiverem na escola.
Além de mais significativo para o aluno, uma aula com vistas à pesquisa é muito mais enriquecedora para o professor. Pois, segundo a própria Proposta Curricular de Santa Catarina: “O professor que só ensina (grifo dos autores) em breve se sentirá tão estacionado como alguém que simplesmente deu férias ao pensamento”(p.63, 1998). Vale lembrar que o verbo ensinar apresentado em destaque se refere exclusivamente ao jeito tradicional de se pensar o processo de ensino-aprendizagem. Ensinar de modo expositivo.
Levá-los a pesquisar, é óbivio que sempre com objetivos claros em mente, é o jeito novo de se pensar o processo de ensino-aprendizagem. Os velhos verbos que encabeçam nossos planos de aula de início de ano, ou de carreira, são precedidos implicitamente do termo “levar o aluno a”. Como, então, que um professor, por mais eficiente que se propõe a ser, pode levar seu aluno a “analisar, comparar, equiparar, ampliar, aguçar, criar, construir” colocando-o sentado por quatro horas a fio?
Por que, então, os professores não assim o fazem, já que, além de mais proveitoso para o aluno, é muito mais prazeroso para todos os envolvidos? Por que é que os professores parecem preferir depositar seus conhecimentos em cadernetas de poupanças e receber nas provas um magro lucro, do que aplicar em ações e ter, como “feedback”, um aluno mais inconstante mas, mais criativo, autônomo e gente? Os juros de se aplicar em ações é colher alunos gentes e que sabem que assim o são. Um aluno que ajuda a construir o que há de mais importante na sua história - o seu conhecimento.
Isso não acontece porque precisaria uma mudança drástica. Uma quebra de paradigmas. E isso cansa, é difícil, dói como todo novo parto. Requer revisão de conceitos arraigados em nós enquanto pais, professores e eternos alunos.
Ensina-se assim, mesmo que contrariando a lógica, as vertentes didáticas e a legislação vigente, porque se aprendeu assim. O professor de Português não consegue se desvincular da ênfase no ensino gramatical, simplesmente porque aprendeu assim. Ele sabe que levar seu aluno a ler, interpretar, escrever, re-escrever, produzir é mais importante do que ele saber as desinências verbais, por exemplo. O ranço, contudo, fala mais alto.
Os disparates por aí continuam. Há professores de Matemática que jamais propuseram a seus alunos a escrever um texto de Matemática. Há também, isso é triste, mas há, professores de Geografia que nunca deram uma aula na rua, ou mesmo no pátio da escola. E, há também alunos de Química que nunca fizeram uma reação química, ou mesmo uma fusão. Há alunos de Literatura que pensam que as músicas que eles ouvem e cantam não são Literatura, porque não constam naquele quadro das Escolas Literárias do Brasil, que tem em seu livro didático Volume Único.
Além disso, há em todas as disciplinas, professores que só dão aula teórica. São amantes do quadro e giz. E, o pior de tudo, há alunos de Educação Física que nunca tiveram uma aula teórica de Educação Física na vida. Há alunos dessa disciplina que nunca foram levados a pesquisar sobre a história da Copa do Mundo, dos Jogos Panamericanos, das Paraolimpíadas e suas respectivas economias, benefícios e malefícios que esses eventos trazem aos países que lhe servem de sede. “O que é e quais as funções da FIFA?” Isso seria pensar grande mais. Há os professores de História que nunca pediram a seus alunos uma entrevista com as pessoas mais velhas do seu entorno. Para que estudar a história local? Há, também, professores de segunda língua que jamais gastariam quatro aulas numa discussão sobre “O por quê de se aprender aquele segundo idioma”, claro, o sacrossanto Verb To Be é, “no doubts”, mais importante. Há professores que têm mais medo de projetos do o Diabo da cruz. É triste, mas há. Isso tudo é um triste legado que herdamos.
Esse mesmo ranço faz com que nós, professores não nos desvinculamos do método retrógrada da escola velha. Afinal de contas, somos o que “deu certo” desse sistema de ensino. Por isso mesmo é que inconscientemente não admitimos que o atual público discente que temos não consiga aprender ou perceber significado no mesmo. Se nós aprendemos, por que eles não aprendem?
Com base nos desdobramentos acima apresentados, migramos para um meio-termo, já que a utopia como solução não caberia aqui. O ideal para o professor seria oscilar entre o novo e o tradicional, já que só o novo poderia afugentar alguns pais e professores e, só o velho poderia matar mais e mais alunos pelas aulas afora. Interagir entre ambos, migrando gradativamente para o mais provável de estar certo.O novo que assusta alguns ou o velho mata muitos? A escolha é sua, professor! A escolha é nossa, professores!
(Por Edson Natal Mateus)




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