Certos tempos atrás, numa época em que havia muitas árvores. E elas eram pintadas de um verde tão forte, mais tão forte quanto o azul do céu em que a passarada se fazia de dona, havia um joão-de-barro muito especial, que tinha como morada a marquise do arco-íris Mor. Esse joão-de-barro não era um joão-de-barro comum. Ele era especial e enxergava a vida por um prisma diferente. Era como se ele a visse por detrás de uma pedra filosofal. Ele não era, mais, muito sonhador como já fora um dia.
À medida que o pequeno joão-de-barro crescia, os amigos da família reparavam – reparavam, mas não falavam. Reparavam que ele mais parecia uma faceira forneira, ou para ser mais otimista, mais parecia um beija-flor. ‘Esse pássaro é tudo, menos um joão-de-barro’. Diziam as más línguas, ou melhor, os maus bicos. O que a passarada não reparava era na alma dele. Essa era tão linda quanto escondida em sua vasta plumagem.
Quanto mais o pobre passarinho sofria, mais sua alma se engrandecia. Se o sofrimento enobrece, esse pobre João-de-barro era a mais linda das criaturas, porque sofrer foi o que ele mais fez desde o seu descasque. De pequeno, ele fugia dos vôos mais altos ou íngremes, porque eles lhe causavam tonturas. Também tinha aversão às brincadeiras violentas dos outros filhotes, pois isso sempre lhe rendia doloridos picotes na cabeça.
Esse joão-de-barro preferia os vôos rasantes e suaves, admirava os beija-flores e preferia grulhar às sobras em um solitário estar só. Mesmo ele, muitas vezes, estranhara muita coisa e muito o seu comportamento. Enquanto os outros joões-de-barro adolescentes perdiam horas e horas flertando com as serelepes joaninhas ou, em terra, observando o ciscar único de cada uma delas, ele passava longas tardes pousado no grande arco do arco-íris tentando ou pensando em atravessá-lo, mas coragem não tinha.
Era como se ele precisasse descascar de novo. Mas dessa vez, tinha que ser um descasque anímico. Sua alma avina teria que vir à luz.
E era com essas penas todas que esse pobre pássaro ia levando sua vida e voando nas agruras de seu mundo multicolor. Muitas vezes, sua mãe chorava por ele, seu pai cobrava-lhe um comportamento que não era seu e seus irmãos se riam dele. Seus avós o repreendiam ferozmente quando flagravam brincando com algum enxame de borboleta, suas efêmeras amigas. E o pobre, sem muito entender daquilo tudo, obedecia e chorava.
E ele só sabia chorar. Chorava-se tanto que mesmo seus raros sorrisos pareciam verter lágrimas. Teve um dia, contudo, que seu coração partiu ao ver um dos membros de sua linhagem, um velho João-de-barro matar sufocada sua esposa. Era um direito que a sociedade joãoninhácea concedia aos pássaros machos: ao suspeitar de infidelidade por parte da esposa, o João-de-barro macho poderia/deveria trancafiar sua companheira na casa deles de deixá-la morrer à míngua.
Esse e outros comportamentos de sua raça o faziam ter vergonha de ter nascido.
A essas duras penas ia levando a vida, esse triste joão-de-barro, até que um dia, quando todas as cores de sua alma iam se apagando e tudo estava prestes a virar treva ele fez-se amigo de um encantador beija-flor. Pela primeira vez em sua curta vida ele tinha um amigo. E, como era bom ter um amigo.
Mas, será que ter amigo era querer estar perto o tempo todo desse amigo? Confundia-se a criatura. Nunca ele tivera amigos antes, não sabia. O que ele sabia é que adorava estar próximo daquele beija-flor. Ele amava as palavras doces e, ao mesmo tempo, inteligentes que saiam de seu ávido biquinho, por meio de grulhidos. Ele amava brincar de duelos de bicos ao entardecer. Eles eram tão felizes juntos que todo o mundo poderia deixar de existir, pois os dois eram, agora, todo o mundo.
Os dois fizeram-se amigos, logo de imediato, talvez, porque tinham muita coisa em comum, mais o que eles tinham de mais parecido era um sonho.
Como era de se esperar, os pais do nossa joãozinho se opunham a essa amizade. ‘João-de-barro vive com João-de-barro, beija-flor vive com beija-flor’. Bradava o velho João-de-barro, pai do protagonista deste conto.
O sonho de atravessar o arco-íris.
E, como todo sonho precisa ser realizado, combinaram, os dois, uma viagem secreta à terra encantada do Arco-íris Mor. Tanto um quanto o outro sentiam um desejo recrudescedor de conhecer tal terra.
Numa orvalhada manhã de sábado, partiram, então, os dois, tal como dois heróis de filmes ou dois moradores de poemas de amor. Com mochilas nas costas, água nas garrafinhas e tudo mais. Essa seria a última vez que ambos seriam vistos por ali. E, nem a mim, a pessoa incubida pela vida de narrar esse conto, foi confiada o paradero dos dois.
Muitas especulações, é claro, foram levantadas sobre o sumiço de ambos.
Os vizinhos malidiscentes nada falavam, mas entreolharam bastante por muito tempo. Em suas mentes eles imaginavam coisas que, aqui, não podem ser ditas, não.
Umas tias, bem velhinhas, juravam que eles tinham se perdidospela mata afora, e se apegavam a grulhar para os santos mirando os céus todas as tardinhas.
O boato, contudo, mais aceitável, o qual eu também acredito dá-se assim. Com a longa viagem, os laços dos amigos puderam se estreitar e , mesmo antes deles terem conseguido transpor os mágicos arcos da Íris-Mor, todas aquelas dívidas que o nosso jõao-de-barro carregava sobre se era amizade tudo o que ele sentia por aquele beija-flor, foram sanadas e ambos perceberam que não eram só amizade tudo o que sentiam. Com certeza, era algo bem mais profundo.
Diante dessa fatídica descoberta eles viram que não podiam assim viver. Viver o que sentiam não podiam. Tinham certeza também que sem viver o que sentiam também também não conseguiriam viver.
Decidiram, então, não mais viver.
Construíram cuidadosamente uma linda casa daquelas da família do nosso João-de-barro. Construíram-na como se construíssem tinhassem a um túmulo. Trancaram-se dentro e, juntos, não mais respiraram.
De epitáfico, cravaram com próprios biquinhos: 'Aqui jaz penas de amor'.
Os vizinhos malidiscentes nada falavam, mas entreolharam bastante por muito tempo. Em suas mentes eles imaginavam coisas que, aqui, não podem ser ditas, não.
Umas tias, bem velhinhas, juravam que eles tinham se perdidospela mata afora, e se apegavam a grulhar para os santos mirando os céus todas as tardinhas.
O boato, contudo, mais aceitável, o qual eu também acredito dá-se assim. Com a longa viagem, os laços dos amigos puderam se estreitar e , mesmo antes deles terem conseguido transpor os mágicos arcos da Íris-Mor, todas aquelas dívidas que o nosso jõao-de-barro carregava sobre se era amizade tudo o que ele sentia por aquele beija-flor, foram sanadas e ambos perceberam que não eram só amizade tudo o que sentiam. Com certeza, era algo bem mais profundo.
Diante dessa fatídica descoberta eles viram que não podiam assim viver. Viver o que sentiam não podiam. Tinham certeza também que sem viver o que sentiam também também não conseguiriam viver.
Decidiram, então, não mais viver.
Construíram cuidadosamente uma linda casa daquelas da família do nosso João-de-barro. Construíram-na como se construíssem tinhassem a um túmulo. Trancaram-se dentro e, juntos, não mais respiraram.
De epitáfico, cravaram com próprios biquinhos: 'Aqui jaz penas de amor'.


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