Na última quinta-feira, tive a oportunidade de presenciar um diálogo, no mínimo, bizarro entre dois conhecidos meus, ambos professores de Língua Portuguesa.
Nessa nova fase de perder peso, estava em minha rotineira caminhada crepuscular, atrás deles, que também caminhavam, e sem querer - sem querer mesmo, eu juro - ouvia o que eles conversavam por em torno de 30 minutos, que foram de muito aprendizado para mim.
Como todo assunto de professor, fatalmente, começa ou termina em aluno, escola, conteúdos ou em afins....Eis como se deu o enigmático diálogo:
Ela:
_ Estou muito contente sabe, este ano dei conta de todo o meu conteúdo programático anual. Pelo que percebi, vou a única da escola que vai dar conta.
Ele:
_ Eu, além de dar conta, realizei um projeto muito interessante. Aquele que saiu no jornal e tudo!
Ela, em tréplica, muda o foco:
_ Quantos que você está recebendo por hora no cursinho pré-vestibular que você trabalha?
Ele, pisando em ovos:
_ Xis ao quadrado. Menos do que eu mereço, mas.....
_No que eu trabalho, recebo xis ao cubo e não quis mais. Quero descansar e me dedicar mais a minha tese. Depois do mestrado, sinto que estou precisando me reciclar de novo.
Ele, que não tinha mestrado, e ainda fazia sua especialização, jogou a coisa para outro lado:
_ Viu como a escola pública que eu trabalho ficou com a avaliação deste ano igual a sua escola , que é particular?
_ Ela, descascando o verniz social, rebate:
_ Claro! É, por que isso aconteceu? E, já respeondeu: _ A maioria dos professores da sua escola trabalham na minha. Só por isso.
Nessa hora, o super-ego dele olha com um olhar assassino para o id dela e tenta comê-lo:
_ Você está louca! Na minha escola tem oitenta professores e só seis trabalham lá.
Ela, sacudindo-se para sair as últimas casquinhas do verniz que ainda tinha, alterca-se:
_ Pááááááára, cara! São esses seis do Ensino Médio que levam a escola nas costas _ professores adoram usar essa expressão - sim. A maioria dos outros professores são do Ensino Fundamental e o Ensino Fundamental não importa.
Quando o ego dele já estava com a espada em punho e o dela com a armadura de gladiador, meu celular soa e eles me percebem. (In)felizmente tão proveitoso diálogo é decapitado, - hibernado- pois, como também sou professor e, acreditem se quiser, de Língua Portuguesa, eles tentaram me incluir em tão frutífera discussão:
_ Aí, colega, já terminou seu último artigo?
Senti, como de súbito, na caixinha esquerda no cérebro, meu ego se assanhando todo e prestes a responder:
_Que artigo?! Ah!...aquele?! Já escrevi mais três ensaios depois dele.
Mas, meio lento, meio se regosmegando, mais indeciso que um afíbio anuro, a caixa direita se abre e surge meu bom senso, repondendo:
_ Opá, colegas! Perdoem-me, mas essa ligação pedia-me para ir embora. Tenho que resolver um contra-tempo doméstico.
E, cortando caminho, fui me.....Nunca é bom se pôr a prova. Recaídas ou caídas acontencem sempre.
Minha moral: a personalidade da gente é como uma pedra bruta.Cabe a nós perceber suas falhas e burilá-las eternamente.
Edinho Natal Mateus.